O «Padrão dos Povos» de Aquae Flaviae more

Fonte, J. 2006: “O «Padrão dos Povos» de Aquae Flaviae”. Al-Madan. IIª Série. 14 (Adenda Electrónica): XI.

SUMÁRIO adenda electrónica s I II Sumário Editorial | Jorge Raposo Arqueologia III O Espólio Lítico de Santo Antão do Tojal João Oliveira Costa IV O Santuário Rupestre do Penedo da Moura (Nogueira, Viana do Castelo) Luís Filipe Loureiro V Espaços e Estratigrafias da Qt.ª de St.º António / Qt.ª da Torrinha (Monte de Caparica, Almada) Rui Pedro Barbosa e Pedro López Aldana VI Ocupação Romana no Subsolo da Travessa do Mercado (V. F. de Xira) João Pimenta e Henriques Mendes adenda electrónica N.º 14 | Dezembro 2006 VII O Lugar da Idade do Bronze do Lombo da Enxurreira (Riba de Âncora, Caminha) Luís Filipe Loureiro e Ivone Magalhães VIII Tafonomia, Paleodemografia e Morfologia (Convento de Jesus, Lisboa) Filipe Ribeiro Bárrios [http://almadan.cidadevirtual.pt] [em migração para http://www.almadan.publ.pt] Opinião IX Sobre uma Nova Legenda Monetária Ibérica: leuni ou laBini ? António Marques de Faria Património X Requalificação das Colecções de Arqueologia Pré-Histórica do Museu Geológico José M. Brandão XI O “Padrão dos Povos” de Aquae Flaviae João Mário Martins da Fonte XII Notícias: actividade arqueológica I adenda electrónica EDITORIAL ficha técnica Capa Jorge Raposo Fase de escavação de um dos fornos da olaria romana da Quinta do Rouxinol (Corroios, Seixal, 1988), em homenagem ao Amigo recentemente desaparecido, Armando Sabrosa, que na imagem trabalha na companhia de Maria Fernanda Lourenço. Fotografia © Jorge Raposo/Centro de Arqueologia de Almada adenda electrónica e al-madan IIª Série, n.º 14, Dezembro 2006 adenda electrónica Propriedade Centro de Arqueologia de Almada Apartado 603 EC Pragal 2801-601 Almada PORTUGAL Tel. / Fax 212 766 975 E-mail almadan@mail.telepac.pt Registo de imprensa 108998 Http://almadan.cidadevirtual.pt [em migração para http://www.almadan.publ.pt] ISSN 0871-066X Depósito Legal 92457/95 Director Jorge Raposo (director.almadan@clix.pt) Conselho Científico Amílcar Guerra, António Nabais, Luís Raposo, Carlos Marques da Silva e Carlos Tavares da Silva Redacção Rui Eduardo Botas, Ana Luísa Duarte, Elisabete Gonçalves e Francisco Silva Colunistas Mário Varela Gomes, Amílcar Guerra, Víctor Mestre, Luís Raposo, António Manuel Silva e Carlos Marques da Silva Colaboram na edição em papel Ass. Port. Avaliação de Impactes, Miguel Almeida, Jorge António, Thierry Aubry, Helena Barranhão, Pedro Barros, Lília Basílio, Luísa Batalha, Fátima Bento, José Bettencourt, Nuno Bicho, Jean-Yves Blot, Pedro Braga, Jacinta Bugalhão, João P. Cabral, Marco Calado, João Caninas, Guilherme Cardoso, Rosalina Carmona, António R. Carvalho, Patrícia Carvalho, Helena Catarino, João Catarino, Manuela Coelho, João Costa, Eugénia Cunha, Adriaan De Man, Fernando Dias, Gina Dias, A. Dias Diogo, Ana L. Duarte, Carlos Fabião, Lídia Fernandes, Mª Teresa Ferreira, Sofia Figueiredo, Iola Filipe, Victor Filipe, João Fonte, Tiago Fontes, Ana Gaspar, M. Varela Gomes, R. Varela Gomes, Filipe Gonçalves, Victor S. Gonçalves, Suzana T. Grave, Jorge A. Guedes, Amílcar Guerra, Fernando Henriques, Mafalda Jorge, Vítor O. Jorge, Virgílio Lopes, Luís Luís, Isabel Luna, António Marques, José Meireles, Víctor Mestre, Mário Monteiro, João Muralha, Pedro Narciso, Nuno Neto, Mª João Neves, N’Zinga Oliveira, Luiz Oosterbeek, Rui Parreira, Gabriel R. Pereira, Teresa R. Pereira, Marina Pinto, João Raposo, Jorge Raposo, Luís Raposo, Paulo Rebelo, João Rebuge, Ana Ribeiro, Leonor Rocha, Armando Sabrosa †, Jorge D. Sampaio, Raquel Santos, António M. Silva, Teresa Soeiro, Manuela Teixeira, João P. Tereso, Ana M. Vale, António C.Valera, Gonçalo L. Velho, Alexandra Vieira Colaboram na Adenda Electrónica M. Arsénio, Rui P. Barbosa, José Bettencourt, José M. Brandão, João Cabral, Patrícia Carvalho, Luís Cónego, João O. Costa, António M. de Faria, Cristóvão Fonseca, João M. da Fonte, Tiago Fontes, Pedro López Aldana, Luís F. Loureiro, Ivone Magalhães, Henrique Mendes, J. Miranda, Nuno Neto, Lurdes Nieuwendam, João Pimenta, Salete da Ponte, Margarida Ramalho, Paulo Rebelo, Filipe Ribeiro Bárrios, Raquel Santos, António L. Tavares Publicidade Elisabete Gonçalves Apoio administrativo Palmira Lourenço Resumos Jorge Raposo (português), Luisa Pinho (inglês) e Maria Isabel dos Santos (francês) Modelo gráfico Vera Almeida e Jorge Raposo Paginação electrónica Jorge Raposo Tratamento de imagem Jorge Raposo Ilustração Jorge Raposo Revisão Maria Graziela Duarte, Fernanda Lourenço Pré-impressão GC Design Ldª Impressão Printer Portuguesa Distribuição da edição em papel CAA Distribuição da Adenda Electrónica distribuição gratuita através de http://almadan.cidadevirtual.pt Tiragem da edição em papel 1500 exemplares Periodicidade Anual Apoios C. M. de Almada, C. M. do Seixal e Inst. Port. da Juventude ano de 2006 fica marcado pela criação do IGESPAR - Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico, que reúne atribuições e competências dos antigos IPA, IPPAR e DGEMN e concretiza a anunciada reformulação dos institutos públicos na área do Património, transformando radicalmente a tutela que condiciona a gestão pública e privada do Património e tem a missão de definir o futuro enquadramento da actividade arqueológica no nosso país. Contudo, uma vez que o enquadramento legislativo final e o modo de materialização desta solução só serão conhecidos em 2007, as páginas da edição impressa da Al-Madan n.º 14 centram a sua atenção noutro acontecimento com reflexos importantes na sociedade portuguesa: o início da aplicação do “modelo de Bolonha” ao ensino superior universitário e politécnico. De facto, no ano lectivo de 2006-2007, boa parte das ofertas de formação superior foram reformuladas, no sentido de integrar o sistema português numa “Área Europeia do Ensino Superior” que reflicta os mecanismos de integração europeia nos planos da igualdade de oportunidades e da mobilidade dos cidadãos. Tendo subjacente um novo paradigma pedagógico, mais centrado na acção do aluno, a adesão a Bolonha implicou a reformulação dos graus académicos, dos planos de curso e dos conteúdos curriculares, para facilitar a sua compatibilidade e complementaridade. Um estudante europeu poderá, a partir de 2010, quando se prevê que o novo sistema esteja generalizado, circular por diferentes estabelecimentos de ensino, no seu país ou no estrangeiro, acumulando créditos transferíveis que lhe garantem a equivalência e o reconhecimento das habilitações académicas. Em dossiê especial, Al-Madan apresenta uma síntese do processo e dos seus objectivos, da forma como o sistema de ensino português se está a reajustar e da procura que esta nova oferta suscitou na última fase do concurso de ingresso, nas áreas da Arqueologia, da História, do Património e da Conservação. São também incluídos alguns textos de opinião e é dada oportunidade aos representantes dos diferentes estabelecimentos de ensino para apresentarem as propostas pedagógicas com que respondem aos desafios de Bolonha. Para além disso, na continuidade da experiência iniciada com sucesso em 2005, a edição inclui ainda uma Adenda Electrónica, que permite explorar a crescente expansão da Internet para distribuir outros conteúdos junto de um universo de utilizadores potencialmente muito vasto. Com um tratamento editorial em tudo semelhante ao do tradicional volume em papel, o site da Al-Madan Online constitui assim uma via suplementar de comunicação entre autores e leitores, promovendo a difusão alargada da cultura científica, sem os constrangimentos e as limitações de distribuição que sempre enfrentam iniciativas desta natureza. O Jorge Raposo adenda electrónica II CENTRO DE ARQUEOLOGIA DE ALMADA al-madan adenda electrónica ISSN 0871-066X | IIª Série (14) | Dezembro 2006 PATRIMÓNIO adenda electrónica p m o O “Padrão dos Povos” de Aquae Flaviae por João Mário Martins da Fonte Licenciado em Arqueologia pela Universidade do Minho (joaofonte@gmail.com) r e s u O texto pretende fornecer uma reflexão acerca do “Padrão dos Povos” (CIL II 2477), coluna honorífica actualmente colocada na ponte romana de Aquae Flaviae (Chaves, Vila Real). Datada do ano 79 d.C., esta coluna apresenta uma inscrição onde são referidas dez civitates que se incluíam no âmbito territorial da referida cidade. O autor procura clarificar a localização e definição geográfica de cada uma delas, apresentando uma proposta de identificação das respectivas capitais. p a l a v r a s c h a v e Aquae Flaviae; Civitates; Povoamento; Época romana; Epigrafia. 1. Introdução presente artigo debruça-se sobre o “Padrão dos Povos” de Aquae Flaviae, actual Chaves, onde são referidas dez civitates que se inserem na sua esfera de influência, particularmente na parte oriental do conventus Bracarensis, que Aquae Flaviae teve a seu cargo tutelar, procurando-se a sua identificação e localização. Para tal, será útil fazer uso da diferenciação que Fermín PÉREZ LOSADA (1998 e 2002) utilizou para as cidades do noroeste peninsular: grandes capitais administrativas, capitais regionais e capitais de civitates. As grandes capitais administrativas são, obviamente, as três cidades de fundação augústea: Bracara Augusta (Braga), Lucus Augusti (Lugo) e Asturica Augusta (Astorga), capitais dos conventus Bracarensis, Lucensis e Asturicensis, respectivamente. As capitais regionais, para além da sua condição de capital de civitas, acumulam funções de domínio indirecto sobre civitates menores incluídas no seu âmbito territorial, como Aquae Flaviae. Por último, as capitais de civitates podiam ir de cidades de alguma dimensão, até povoados fortificados. Importa destacar, neste caso, as capitais regionais, já que Aquae Flaviae foi capital regional, particularmente da parte oriental do conventus Bracarensis, exercendo domínio indirecto sobre as dez civitates inscritas no “Padrão dos Povos”, além de ser capital da civitas Aquiflaviensis, e também as capitais de civitates, já que grande parte das capitais das civitates referidas no “Padrão dos Povos” insere-se nesta categoria. O 1 Sulcos que os canteiros romanos escavavam nas pedras onde eram depois aplicados os grampos do forfex ou tenaz elevatória. Este sistema funcionava associado a um sistema de guindaste, de maneira a ser possível a elevação das pedras. Aquae Flaviae, verdadeiro caput viae (nó viário), acede à categoria de municipium Latinum (município latino) entre 74 e 79 d.C., aquando da atribuição do ius Latii (direito latino) pelos Flávios à Hispânia, tornando-se num verdadeiro epicentro romanizador, capital da Gallaecia meridional interior, estruturando e vertebrando o território que lhe estava subordinado, enquanto que a parte ocidental do conventus Bracarensis era controlada por Bracara Augusta. A ponte romana em Chaves sobre o rio Tâmega, com as suas duas colunas honoríficas, o “Padrão de Trajano” e o “Padrão dos Povos”, é um excepcional exemplo de arquitectura civil romana, que se insere no contexto da edificação de múltiplas estruturas de funcionalidade pública no período flaviano, após ser-lhe conferido o estatuto municipal, passando Aquae Flaviae a ocupar um lugar de destaque no sistema administrativo romano. A ponte é construída em cantaria de granito, com silhares almofadados e respectivas marcas de forfex 1, formada por arcos simétricos de volta perfeita e enormes aduelas, quebra-rios desiguais, alternados por pilares semicilíndricos de apoio aos candeeiros e às colunas, parapeito avançado, guardas em ferro e pavimento em cubos graníticos, datando estas últimas alterações de 1880, tal como nos indica uma inscrição que se encontra na ponte, já que, originariamente, possuía guardas em granito e pavimento lajeado. Possui, actualmente, dezasseis arcos visíveis, doze em rio e quatro em terra, sendo possível que tenham existido alguns mais, ocultados com o crescimento da cidade em cada uma das margens, particularmente na margem esquerda. Mantém, no seu conjunto, a traça original, evidenciada pelas pedras almofadadas e marcas de forfex, embora se notem reformas parciais em épocas a b s t r a c t In this paper the author reflects on the “Padrão dos Povos” (CIL II 2477), a homage column now placed on the Roman bridge of Aquae Flaviae (Chaves, Vila Real). This column is from 79 AC and it shows an inscription mentioning ten civitates which were part of the town’s territorial influence. The author tries to explain the geographical location and definition of each of them and proposes an identification of their capitals. k e y w o r d s Aquae Flaviae; Civitates; Settlement; Roman Times; Epigraphy. r é s u m é Le texte a pour but de fournir une réflexion autour du “Patrão dos Povos” (CIL II 2477), colonne honorifique actuellement située sur le pont romain de Aquae Flaviae (Chaves, Vila Real). Datée de l’année 79 Ap. J.-C, cette colonne présente une inscription où sont mentionnées dix civitates qui étaient incluses dans le cadre territorial de la ville citée. L’auteur cherche à clarifier la localisation et la définition géographique de chacune d’elles, présentant une proposition d’identification des capitales respectives. m o t s c l é s Aquae Flaviae; Civitates; Peuplement; Epoque romaine; Épigraphie. VI.1 adenda electrónica p PATRIMÓNIO adenda electrónica Figura 1 Foto aérea da ponte romana de Chaves, com as duas colunas (Fonte DGEMN). posteriores, particularmente nos dois últimos arcos do lado esquerdo da ponte, possível consequência de uma cheia que no século XVI a destruiu parcialmente. A “Coluna de Trajano” contém a seguinte inscrição: IMP(eratori) CAES(ari) NERVA/ TRAIANO AVG(usto) GERM(anico)/ DACICO PONT(ifici) MAX(imo)/ TRIB(unicia) POT(estate) CO(n)S(ule) V P(atri) P(ATRIAE)/ AQVIFLAVIENSES/ PONTE LAPIDEVM/ DE SUO F(aciendum) C(uraverunt) (CIL II 2478). Com base nas magistraturas de Trajano, pode-se avançar a data de 104 d.C. para a conclusão da construção da ponte. Não restam dúvidas de que a sua erecção ficou a cargo dos Aquiflavienses. A segunda coluna, o “Padrão dos Povos”, que data do ano 79 d.C., contém a seguinte inscrição: IMP(eratori) CAES(ari) VESP(asiano) AVG(usto) PONT(ifici)/ MAX(imo) TRIB(unicia) POT(estate) X IMP(eratori) XX P(atri) P(atriae) CO(n)S(uli) IX/ IMP(eratori) VESP(asiano) CAES(ari) AVG(usti) F(ilio) PONT(ifici) TRIB(unicia)/ POT(estate) VIII IMP(eratori) XIIII CO(n)S(uli) VI[I]/ (...)/ C(aio) CALPETANO RANTIO QUIRINALI/ VAL(erio) FESTO LEG(ato) AVG(usti) PR(o) PR(aetore)/ D(ecimo) CORNELIO MAECIANO LEG(ato) AVG (usti)/ L(ucio) ARRVNTIO MAX(imo) PROC(uratori) AVG(usti)/ LEG(io) VII GEM(ina) FEL(ix)/ CIVITATES X/ AQVIFLAVIENSES AVOBRIGENS (es)/ BIBALI COELERNI EQVAESI/ INTERAMICI LIMICI NAEBISOCI/ QUERQVERNI TAMAGANI (CIL II 2477). Optámos, para a listagem das civitates, por seguir uma ordem alfabética, que nos parece algo ló- gica, embora possa não ser a correcta, já que as variantes Aobrigenses ou Avobrigenses e Naebisoci ou Aebisoci deixam-nos bastantes dúvidas. A parte intermédia, que se encontra apagada, será uma possível consequência da damnatio memoriae (proscrição da memória) de Domiciano. Esta coluna honorífica representa, provavelmente, um acto de agradecimento por parte das dez civitates nela inscritas pela concessão do ius Latii a este grupo de povos, antes mesmo da construção da ponte, que será obra exclusiva dos Aquiflavienses. Ambas as colunas que se encontram actualmente na ponte romana aparentam ser réplicas dos respectivos originais. O original do “Padrão dos Povos” apareceu junto à ponte na dragagem do rio em 1980, e encontra-se actualmente no Museu da Região Flaviense, enquanto que se desconhece o paradeiro do original da “Coluna de Trajano”. A substituição dos originais por réplicas poderá estar relacionada com a progressiva deterioração das colunas originais. A primeira coluna está inevitavelmente associada à Ponte de Trajano, podendo ter sido colocada na própria ponte desde a sua conclusão, enquanto que a localização da segunda coluna, pelo menos numa primeira fase, é algo problemática. Pode ser apontado um local público para a sua localização, embora seja pouco usual encontrar-se este tipo de colunas cilíndricas em espaços públicos, não nos parecendo também que se possa relacionar com um marco miliário, pelo que se poderia antes encontrar localizada à entrada da cidade. Posteriormente, poderá ter sido colocada na ponte, conjuntamente com a “Coluna de Trajano”. Assim, as civitates dependentes de Aquae Flaviae eram as seguintes: Aquiflavienses, Avobrigenses, Bibali, Coelerni, Equaesi, Interamici, Limici, Naebisoci, Querquerni e Tamagani, e integravam-se na área dos Callaeci Bracari. Antes, contudo, de iniciarmos a sua localização e identificação propriamente dita, achamos conveniente fazer uma breve contextualização histórica. 2. Contextualização Histórica A conquista e integração do noroeste peninsular no império romano insere-se no quadro do progressivo controlo militar da Hispânia, tendo este processo sido iniciado em 218 a.C., com o desembarque em Emporion (Ampúrias) das tropas romanas chefiadas por Cneio Cornélio Cipião, no contexto da IIª Guerra Púnica. A conquista definitiva do noroeste peninsular está tradicionalmente associada à data de 19 a.C., que marca o fim das guerras cantábricas (29-19 a.C.). É actualmente aceite pela maioria dos investigadores que as populações indígenas da região meridional da Gallaecia não ofereceram mais do que adenda electrónica VI.2 CENTRO DE ARQUEOLOGIA DE ALMADA al-madan adenda electrónica ISSN 0871-066X | IIª Série (14) | Dezembro 2006 uma resistência simbólica ao poder romano, mantendo-se esta região afastada destes últimos confrontos militares, pelo que, beneficiando desse afastamento, conheceu uma precoce influência romana, embora com diferentes estímulos segundo as regiões (MARTINS et al. 2005: 280-281). Aparentemente, os contactos com a civilização romana introduziram novos modelos de organização habitacional e territorial, expressos no despontar do proto-urbanismo, com maior relevância na zona litoral, e assente num sistema de organização suprafamiliar, os castella e os populi, originando uma complexificação das estruturas político-administrativas, económicas, sociais e religiosas, inseridos num vasto quadro regional de um novo processo de hierarquização do povoamento. A chamada Cultura Castreja do Noroeste Peninsular atinge um maior grau de desenvolvimento na sua etapa final (séculos I a.C.-I d.C.), gerando grandes oppida proto-urbanos, que seguramente funcionaram como núcleos centrais de alguns populi, embora alguns deles não tenham sido já capitais das subsequentes civitates flavianas (PÉREZ LOSADA 1998: 166). Deste modo, o habitat castrejo tradicional inicia um processo progressivo e paulatino de abandono a partir de finais do século I d.C., inversamente proporcional à criação de novos núcleos romanos (PÉREZ LOSADA 1998: 169). Após a conquista definitiva do noroeste peninsular e consequente reorganização administrativa, poderá considerar-se que Augusto não instituiu verdadeiras civitates no noroeste peninsular, aproveitando antes a organização pré-existente dos populi indígenas, atribuindo o poder a elites locais imortalizadas nas estátuas de “guerreiros galaico-lusitanos”, e que só com os Flávios foram instituídas verdadeiras civitates, originando uma reorganização e uma nova estruturação do território. O próprio desaparecimento do C invertido, interpretado como castellum (ALBERTOS FIRMAT 1975) nas inscrições epigráficas, e a utilização das civitates que tem lugar depois supõe uma mudança na organização das comunidades indígenas, provavelmente resultante da concessão do ius Latii em 73-74 pelos Flávios (PEREIRA MENAUT 1983: 184-185). Os lugares centrais que funcionaram como capitais das circunscrições administrativas augustanas poderão, eventualmente, ser determinados com base nos povoados onde se encontraram estátuas de “guerreiros galaico-lusitanos”, que são, provavelmente, representações de chefes ou princeps indígenas, atribuíveis ao século I d.C., mas pré-flavianas (ALARCÃO 1992: 63, 2003b: 116). Alguns autores (GONZÁLEZ-RUIBAL 2003) defendem uma cronologia pré-romana para estas estátuas e associam-nas ao processo de “oppidização” indígena. Contudo, tanto o Edicto do Bierzo (15 a.C.) (SÁNCHEZ-PALENCIA e MANGAS 2000), como a Tabu- la Lougeiorum (1 d.C.) (RODRÍGUEZ COLMENERO 1996; DOPICO CAINZOS 1988) apontam uma implementação precoce do sistema das civitates no conventus Asturum, ainda em época de Augusto. Uma coisa é inegável: pelo menos a partir do período flaviano, as civitates, enquanto efectivo sistema administrativo romano, já se encontravam verdadeiramente estabelecidas no noroeste. Será que as civitates só terão sido realmente instituídas em época flaviana, ou foram sendo instituídas em determinados territórios conforme os interesses romanos e os condicionalismos dessas áreas? Em época pré-romana, na área do conventus Asturum não existiam entidades de funcionamento político acima do castro, não podendo sustentar-se o modelo de lugares centrais. Para além disso, a exploração aurífera nesta zona terá começado logo após a conquista da Hispânia, pelo que a intervenção administrativa romana neste território foi muito mais profunda e prematura (SANCHEZ-PALENCIA e MANGAS 2000; SASTRE PRATS 2001). Pelo contrário, na área do conventus Bracarum parece notar-se em época pré-romana uma hierarquização do povoamento, que terá originado algum tipo de organização indígena, na qual os romanos se poderão ter baseado e apoiado, pelo menos numa primeira instância, para o estabelecimento das civitates. Augusto talvez tenha criado circunscrições territoriais correspondentes ao anterior quadro dos populi pré-romanos, escolhendo os antigos lugares centrais como capitais das novas unidades administrativas, confiando o governo a princeps indígenas, tutelados pelos emergentes centros urbanos e conventuais: Bracara Augusta, Asturica Augusta e Lucus Augusti (ALARCÃO 1992: 63). Figura 2 Foto aérea de Chaves (Fonte Câmara Municipal de Chaves). VI.3 adenda electrónica p PATRIMÓNIO adenda electrónica Com as reformas administrativas flavianas, foi atribuído a Aquae Flaviae um papel de tutela sobre as demais civitates referidas no “Padrão dos Povos” (ALARCÃO 2004a: 451). Todavia, alguns autores (SASTRE PRATS 2001) duvidam de uma verdadeira estruturação político-territorial pré-romana, atribuindo tal fenómeno à chegada dos romanos. GONZÁLEZ-RUIBAL (2003) considera que o momento de apogeu dos oppida está compreendido entre os inícios do século I a.C. e finais desse mesmo século, fruto do sinecismo (concentração populacional) indígena. Depois da conquista e reorganização do noroeste por Augusto, talvez quando se possa realmente falar de romanização, começa o lento declínio dos oppida indígenas, pelo que a maior parte destes núcleos desaparece em meados do século I d.C., e os que persistem vêm alterada a sua morfologia (GONZÁLEZ-RUIBAL 2003). Uma parte dos castros manteve-se, ou por razões de ordem político-estratégica, ou porque se especializaram num segmento específico do novo quadro económico, como a pastorícia ou a produção de bens agrícolas e metalíferos, conforme o espaço em que estavam inseridos, passando agora a estar integrados numa nova ordem imperial. Basicamente, mantêm-se os castros úteis e válidos para Roma. A atribuição do ius Latii a toda a Hispânia por Vespasiano a partir de 73-74 d.C., e a consequente reorganização político-administrativa do noroeste, é o corolário desta mudança, pelo que, a partir desta altura, a organização político-administrativa deixa de ser feita através dos castella, passando as populações a estar integradas em civitates. A partir de então, se bem que os castros não tenham sido despovoados, os indivíduos que antes se identificavam pelos castella de origem, passam agora a identificar-se pela civitas em que esses castella se inserem, daí que o C invertido desapareça das inscrições epigráficas nos finais do século I d.C. (ALARCÃO 1999: 138). A concessão do ius Latii permitiu às comunidades indígenas organizarem-se e estruturarem-se de forma romana, embora as civitates não tenham que reflectir fisicamente, a nível de habitat, o novo modelo. Daí que as soluções adoptadas variem consoante a área geográfica em que se inserem, pelo que, no noroeste peninsular, predomina claramente a continuidade do habitat tradicional em castella (PÉREZ LOSADA 1998: 166). O quadro dos populi pré-romanos do noroeste, e particularmente da área que estamos a tratar, pode deduzir-se, principalmente, a partir da Historia Naturalis de Plínio (III, 28), que contabiliza 24 civitates para o conventus bracarensis e cerca de 285 000 habitantes: “Simili modo Bracarum XXIIII civitates CCLXXXV capitum, ex quibus praeter ipsos Bracaros, Bibali, Coelerni, Callaeci, Equaesi, Limici, Querquerni citra fastidium nominentur”. Também a Geographia de Ptolomeu refere Caladunum (II, 6, 38), Pinetum adenda electrónica (II, 6, 38), os Turodi e Aquae Flaviae (II, 6, 39), os Coelerni e Coeliobriga (II, 6, 41), os Bibali e o Forum Bibalorum (II, 6, 42), os Limici e o Forum Limicorum (II, 6, 43) e os Querquerni e Aquis Querquernis (II, 6, 46). A informação pode ainda ser complementada com algumas inscrições epigráficas e é possível, também, extrair dados do Itinerário de Antonino, particularmente no que se refere à enumeração das mansiones das vias XVII (Via Prima) e XVIII (Via Nova). Relativamente à Via XVII, cabe destacar as mansiones de Praesidium, Caladunum, Ad Aquas e Pinetum, enquanto que em relação à Via XVIII convém destacar a mansio de Aquis Querquernis. Parte delas poderão associar-se com algumas das capita civitatis em questão. Contudo, será também relevante analisar com atenção documentos de épocas ulteriores que possam fornecer dados etnonímicos. 3. Localização das Civitates do “Padrão dos Povos” Em primeiro lugar, será conveniente tentarmos traçar os limites genéricos do convento bracarense, bem como da área de influência de Aquae Flaviae, tendo por base Estrabão, que afirmava que os limites naturais eram definidos pelos maciços orográficos e pelos cursos fluviais e marítimos. Assim, o limite setentrional do convento bracarense, que faz aqui fronteira com o convento lucense, pode-se definir pelas serras de Cando e de Caurel, e o limite meridional é definido pelo Rio Douro. O limite oriental poderá traçar-se pelas serras de Bornes, de Nogueira e da Coroa e pelas serras da Queixa, de San Mamede e do Burgo, e o limite ocidental pelo Oceano Atlântico. No que respeita à área de influência de Aquae Flaviae, o seu limite setentrional corresponde ao do convento bracarense, sendo o meridional definido pelas serras da Padrela, do Alvão e de Santa Comba. O limite oriental também coincide com o do convento bracarense, e o limite ocidental passa pelas serras da Cabreira e do Gerês, e pelas serras da Peneda e do Suído. Começando pelas civitates localizadas em actual território português, e sendo aquela que menos dúvidas suscita, a civitas dos Aquiflavienses é evidentemente associada com a mansio de Ad Aquas da Via XVII do Itinerário de Antonino, e eventualmente demarcada sobre o território dos Turodi, referidos por Ptolomeu (II, 6, 39), cujo núcleo central se deverá localizar, sem sombra de dúvidas, em Aquae Flaviae. Aquae Flaviae aglutinou diversos populi sob a sua jurisdição, sendo eventualmente os Turodi a entidade étnica pré-romana que povoava o âmbito mais próximo, com provável lugar central no Castro de Santiago do Monte ou Crastas de Santiago, freguesia de Nogueira da Montanha, concelho de Chaves, se- VI.4 CENTRO DE ARQUEOLOGIA DE ALMADA al-madan adenda electrónica ISSN 0871-066X | IIª Série (14) | Dezembro 2006 gundo uma inscrição (CIL II 2480) que refere o castellum Tureobriga (SILVA 1986: 275), ou outra variante semelhante. Os Turodi foram convertidos em civitas centrada em Aquae Flaviae, sendo o antigo nome étnico substituído pelo de Aquiflavienses (TRANOY 1981: 62-63). Cabe também referir os Caladuni, que se associam com a mansio de Caladunum, referida por Ptolomeu (II, 6, 38) e no Itinerário de Antonino, logo atrás da mansio de Ad Aquas da Via XVII, podendo-se localizar nas imediações de Vilar de Perdizes, concelho de Montalegre. O lugar central dos Caladuni, referidos em algumas inscrições epigráficas, poderá identificar-se com o Castro do Pedrário, freguesia de Sarraquinhos, concelho de Montalegre, bastante próximo da mansio de Caladunum (RODRÍGUEZ COLMENERO et al. 2004: 125). Os Caladuni não se encontram referidos no “Padrão dos Povos”, possivelmente pelo facto de terem sido integrados na civitas Aquiflaviensis, à semelhança dos Turodi, já que Aquae Flaviae aglutinou distintos populi sob a sua jurisdição (ALARCÃO 2004a: 452). Muitas das mansiones que herdaram o nome de alguns oppida, como no caso de Caladunum, não coincidiam, em rigor, com a sua localização, senão com um lugar do seu entorno, próximo das vias, gerando-se com frequência autênticos vici. Daí que Ptolomeu refira no século II d.C. algumas das mansiones inscritas no Itinerário de Antonino como polis (RODRÍGUEZ COLMENERO et al. 2004: 48). O centro capital dos Equaesi, que são referidos por Plínio (III, 28), poderá identificar-se com o Castro do Lesenho, localizado na freguesia de São Salvador de Viveiro, concelho de Boticas, de onde procedem quatro estátuas de “guerreiros galaico-lusitanos”. De referir que a paróquia Equesis vem listada no Parrochiale Suevicum na diocese de Bracara, e que se deverá associar com a civitas dos Equaesi (ALARCÃO 2001: 34). Para além disso, há referência a uma ceca visigoda “Evvesis”, com base num triente de Sisebuto recentemente dado a conhecer que a menciona (VICO MONTEOLIVA et al. 2006: 191), e no Liber Fidei é mencionada uma “ruína antiqua…Equisis”, habitualmente localizada nas imediações das serras do Gerês e do Larouco e associada à mansio de Caladunum (SILVA 1986: 284). Será possível, na senda de Jorge de ALARCÃO (2004a: 452-453), apontar uma possível civitas no vale do Rabagão, sendo eventualmente o seu centro capital o Castro de S. Vicente da Chã, freguesia de S. Vicente da Chã, concelho de Montalegre. Esta civitas deverá fazer fronteira a ocidente com o território dos Bracari, fronteira esta definida pelas serras da Cabreira e do Gerês. O nome desta civitas deverá encontrar-se referido no “Padrão dos Povos”, podendo talvez corresponder aos Aobrigenses ou Avobrigenses ou, em alternativa, aos Naebisoci ou Aebisoci. Um miliário da Via XVII, aparecido perto de Ruivães, concelho de Vieira do Minho, com as milhas contadas a partir de Aquae Flaviae (ab Aquis Flaviis), permite-nos considerar que a área de influência de Aquae Flaviae se estendia a ocidente pelo menos até esta zona (ALARCÃO 2004a: 453). De referir ainda uma possível civitas com capital em Pinetum, aglomerado referido por Ptolomeu (II, 6, 38) e no Itinerário de Antonino, logo a seguir à mansio de Ad Aquas na Via XVII, e que faria fronteira a Leste com os Zoelas, que já se incluíam no conventus Asturicensis, localizando-se, desta forma, no limite oriental do conventus Bracaraugustanus (MARTINS et al. 2005: 283), definido pelas serras de Nogueira e de Bornes. O centro capital desta civitas poderá eventualmente identificar-se com o Cabeço de Vale de Telhas, freguesia de Vale de Telhas, concelho de Mirandela. O nome desta civitas deverá também encontrar-se referido no “Padrão dos Povos”, podendo eventualmente identificar-se com os Aobrigenses ou Avobrigenses ou, em alternativa, com os Naebisoci ou Aebisoci. Os miliários referentes à Via XVII encontrados na área de Vale de Telhas, aparentemente, também contam as milhas a partir de Aquae Flaviae, pelo que esta zona ainda se deverá incluir no seu âmbito de influência. A fundação desta civitas e a instalação da sua capital poderão ter justificado a construção do ramal meridional da Via XVII entre Aquae Flaviae e Castro de Avelãs que, ao contrário do ramal setentrional, que data de Augusto, foi construído no período flaviano. Figura 3 “Padrão dos Povos” (Fonte Câmara Municipal de Chaves). VI.5 adenda electrónica p PATRIMÓNIO adenda electrónica Todavia, importa ressalvar que estes centros capitais das civitates referidas poderão apenas tê-lo sido numa fase inicial do domínio romano. Possivelmente a partir da dinastia flaviana, novos centros e povoados de origem romana terão sido criados, o que terá originado transferências de capitalidade. As restantes civitates referidas no “Padrão dos Povos”, os Tamagani, os Limici, os Querquerni, os Coelerni, os Interamici e os Bibali, estão já localizadas, com alguma segurança, em território espanhol, particularmente na província de Ourense. Os Tamagani ou civitas Tamacanorum teriam provável capital no aglomerado romano de Verín, possivelmente transferida do vizinho castro de Monterrei (PÉREZ LOSADA 2002: 237-238). Os Limici ou civitas Limicorum, referidos por Plínio (III, 28) e por Ptolomeu (II, 6, 43), além de Hidácio mencionar na sua crónica a Lemica civitas, teriam capital em Forum Limicorum, coincidente com o aglomerado romano de Xinzo de Limia, embora a sua primitiva capital se localizasse possivelmente no Castro de A Cerca, em Nocelo da Pena (PÉREZ LOSADA 2002: 224-227). Os Querquerni ou civitas Querquernorum, referidos por Plínio (III, 28), teriam capital em Aquis Querquernis, referida por Ptolomeu (II, 6, 46) e como mansão viária da Via XVIII do Itinerário de Antonino, em Porto Quintela, Bande, transladada possivelmente do Castro de Rubiás, de onde procede uma estátua de “guerreiro galaico-lusitano” (PÉREZ LOSADA 2002: 195-198). Os Coelerni, citados por Plínio (III, 28) e por Ptolomeu (II, 6, 41), teriam capital em Coeliobriga, actual Castro de Castromao, em Celanova, de onde procede uma estátua de “guerreiro galaico-lusitano”, com base num pacto de hospitalidade entre os Coelerni e um praefectum da Cohors I Celtiberorum, datado de 132 d.C. (TRANOY 1981: 66). Para os Interamici, a partir de uma inscrição epigráfica encontrada em Asadur, na região de Maceda, consagrada pela Res Publica Interamniensis, é possível supor o seu território em torno desta povoação, faltando apenas identificar-se o centro capital (MARTINS et al. 2005: 282), que poderá ser o Castro da Cibdá de Arméa, em Allariz, de onde procedem duas estátuas de “guerreiros galaico-lusitanos”. Por último, os Bibali, citados por Plínio (III, 28) e por Ptolomeu (II, 6, 42), teriam capital em Forum Bibalorum, que se poderá identificar com o Castro de San Cibran de Las, em San Amaro, pois alguns documentos do Mosteiro de Celanova, datados do século X, situam na zona de confluência do rio Barbantiño com o Minho o “território Bubalense”, “território de Bubale”, “território Bubalo” (MARTINS et al. 2005: 282; ALARCÃO 2003b: 124). Cabe também questionar se a civitas Auriensis, actual Ourense, foi capital de civitas, ou fez parte de uma das civitates anteriormente mencionadas, já adenda electrónica que, aparentemente, também se incluía no eixo de influência de Aquae Flaviae. Estas transferências de capitalidade são provavelmente coincidentes com a atribuição do ius Latii à Hispânia pelos Flávios, o que favoreceu o florescimento de novos aglomerados, sempre bastante próximos da rede viária. Contudo, muitas vezes a capitalidade de iure (por direito) poderia ainda pertencer ao povoado indígena, embora a capitalidade de facto pertencesse já ao novo aglomerado. A partir da segunda centúria, a capitalidade efectiva foi totalmente transferida para estes novos aglomerados. Ptolomeu refere no século II d.C. algumas destas efectivas capita civitatis. Desta forma, todas estas civitates incluíam-se no âmbito territorial de Aquae Flaviae, capital da Gallaecia meridional interior, que tutelava e vertebrava a parte oriental do convento bracarense. Bibliografia ALARCÃO, Jorge de (1988a) − Roman Portugal. Warminster. Vol. II, fasc. 1: Porto, Bragança e Viseu. ALARCÃO, Jorge de (1988b) − O Domínio Romano em Portugal. Lisboa. ALARCÃO, Jorge de (1992) − “A Evolução da Cultura Castreja”. Conímbriga. Coimbra: Instituto de Arqueologia da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. XXXI: 39-71. ALARCÃO, Jorge de (1995-1996) − “As Civitates do Norte de Portugal”. Cadernos de Arqueologia. Braga. IIª Série, 12-13: 25-30. ALARCÃO, Jorge de (1998a) − “As Cidades Capitais do Norte de Portugal na Época Romana”. In Actas del Congresso Internacional “Los orígenes de la Ciudad en el Noroeste Hispânico”. Lugo. 2 vol. ALARCÃO, Jorge de (1998b) − “Ainda sobre a Localização dos Populi do Conventus Bracaraugustanus”. Anales de Arqueologia Cordobesa. 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Via XX Bracara Augusta Cale 0 30 km Figura 4 Principais centros urbanos e vias de comunicação no noroeste peninsular em época romana. VI.7 adenda electrónica
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